sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Vitórias dos mandantes: coincidência?







No texto entre aspas que vem a seguir, está a resposta que dei ao ser consultado pelo site Cidade do Futebol sobre a supremacia dos times mandantes nos campeonatos de futebol pelo mundo. Abaixo a pauta e em seguida a resposta.


Cidade do Futebol - O Mourinho deve completar 100 partidas sem perder em casa por competições nacionais nesta quarta. Já o Felipão levou o Chelsea a 86 jogos de invencibilidade no estádio deles.

No Campeonato Brasileiro, o time que mais venceu fora de casa foi o Grêmio, com cinco resultados positivos.

A questão é: por que os times têm tanta dificuldade para jogar fora de casa e como alguns conseguem transformar suas casas em arma?

Você poderia comentar um pouco sobre isso, em termos táticos e de disposição da plataforma de jogo?


"Muito se atribui a vantagem de jogar em casa a fatores como o apoio do torcedor, pressão emocional sofrida pelo adversário, melhor adaptação ao tipo de gramado e alguns outros motivos clássicos na explicação de torcedores e jornalistas. Temos ainda as viagens (muitas vezes longas) como motivo para derrotas em campo adversário.

Caminhando pela dominante tática temos a estruturação do espaço de jogo como uma variável importante na eficácia de um time. Ao jogar em casa, a equipe possui maior vivência naquele campo de jogo em relação ao adversário por jogar freqüentemente e muitas vezes realizar treinamentos (principalmente quando a equipe não possui um centro de treinamento) no estádio. Conseqüentemente tem uma probabilidade maior de equilibrar-se espacialmente no gramado conseguindo cumprir um importante princípio relacionado ao êxito no futebol. Ainda nessa direção, jogando em casa, a equipe tem maior facilidade em criar referências visuais para ativar determinados comportamentos, como, por exemplo, definir o início de um aumento na intensidade para recuperar a bola do adversário a partir de uma placa de publicidade, ou de uma divisão dos setores da arquibancada. Treinadores famosos já se utilizaram dessa estratégia e para citar apenas um temos Telê Santana, bi-campeão mundial interclubes com o São Paulo.

Mas seria irresponsabilidade atribuir a apenas componentes táticas essa vantagem dos mandantes, pois equipes que jogam perante sua torcida muitas vezes adotam uma estratégia mais ousada, o que não fazem longe de seus domínios. É fato a vantagem dos times mandantes e pesquisadores pelo mundo todo coletam dados e encontram resultados muito próximos independente do país ou divisão estudada.”


Confira a coluna completa no site Cidade do Futebol



Leandro Zago

sábado, 20 de setembro de 2008

Jogar em Ação e Jogar em Reação








“quem marca ao homem corre por onde o rival quer.
Essa caçada tem por fim capturar um inimigo, mas o meio usado converte o marcador em prisioneiro”

(Valdano, 2002)



Durante uma partida de futebol, as duas equipes passam todo o tempo apresentando comportamentos em função dos acontecimentos do jogo. Dependendo do nível da competição e do quão preparadas estão as equipes essas ações podem ser mais coletivas ou menos coletivas, mais planejadas ou menos planejadas, mais em resposta às atitudes do adversário ou menos em resposta às atitudes do adversário. Diante desse cenário temos ao longo da partida uma oscilação do domínio das ações do jogo por parte desta ou daquela equipe, podendo ocorrer de forma até certo ponto equilibrada ou não, com uma equipe tendo domínio sobre grande parte das ações construídas no jogo. Esse talvez seja um dos maiores dilemas do treinador, buscar as explicações para os dois momentos (como dominador e dominado) para melhor compreensão da sua equipe e para poder interferir de forma assertiva no processo de treino, no relacionamento com os atletas e nas substituições e alterações táticas que realiza durante as partidas.

Para que uma equipe consiga dominar o seu adversário, ela precisa naquele período de domínio (sejam trechos dentro de uma partida ou a partida toda) ter um controle sobre um maior número de variáveis que influenciem no resultado da partida do que seu rival. E aí inclui-se a estruturação do espaço de jogo, princípios de ataque e defesa, timings de transição e outras inúmeras variáveis.

Jogar em ação seria, portanto, ter a iniciativa sobre as ações do jogo, fazer com que a equipe realize comportamentos coletivos muito bem coordenados que o adversário tenha grande dificuldade em interferir, ou por não estar habituado a confrontar-se com determinada situação, ou pela qualidade com que a equipe dominadora a executa. Para isso é necessário assumir a partida, ter a bola, ter estruturas de circulação da mesma, boa amplitude, profundidade ofensiva e transições que permitam recuperar a bola o mais rápido possível quando for perdida. Outra opção para jogar em ação é optar pelo controle da partida, com o domínio das variáreis porém sem a necessidade absoluta de ter a bola (pode-se ter o controle com a bola também), preocupando-se em gerir os espaços do campo.

A frase de Valdano no início do texto exprime uma incoerência que algumas (senão muitas) equipes apresentar no seu jogar. Ao se preocupar em anular adversários, essas equipes acabam por esquecer (ou não priorizar) algo que é fundamental: jogar futebol para ganhar jogos. Acompanhar o jogador adversário pelo espaço que ele se desloca, faz com que o marcador sempre “reaja” às movimentações adversárias, portanto, a equipe que está sem bola joga em reação. E jogando em reação permitem ao adversário o controle sobre a partida. Tendo o controle sobre a partida aumentam as chances do meu adversário procurar por um jogo que lhe seja habitual e que faz melhor. O marcador-prisioneiro deve ao fato de este não poder se preocupar em cumprir princípios de jogo que não sejam a referência ao adversário direto, podendo-o levar para espaços do campo que não lhe sejam favoráveis.

Construir uma forma de jogar que seja ativa exige um trabalho mais elaborado do que um jogar reativo, mas considerando todo o lado estratégico do futebol, não pode-se desconsiderar o jogar em reação como uma alternativa para o confronto com determinadas características dos adversários.

Referências Bibliográficas

Valdano, J. (2002) El miedo escénico y otras hierbas. Aguilar. Madrid.

Leandro Zago - CIEFuT