sexta-feira, 24 de julho de 2026

Como os Esquemas Táticos influenciam na Pressão ao Adversário

 


Essa figura é muito mais profunda do que parece. Na realidade, ela representa uma mudança de paradigma na forma de entender a pressão no futebol. Durante décadas, analisamos o pressing principalmente por intensidade ("quantas pressões", "PPDA", "altura da recuperação"). O gráfico do Ben Griffis introduz uma variável muito mais sofisticada:

A pressão não depende apenas de quem pressiona, mas de COMO o defensor chega ao momento da pressão.

Ele divide a pressão em dois mecanismos completamente diferentes:

  • Being there (Receipt Pressure) → o defensor já está presente quando o adversário recebe.
  • Arriving (Arrival Pressure) → o defensor chega correndo no instante do passe ou imediatamente depois.

Essas duas formas produzem efeitos cognitivos, biomecânicos e táticos completamente diferentes.


Primeiro: entender os eixos

Eixo Y

Average Pressure on Receipt %

Quanto maior...

...mais frequentemente o receptor da bola já recebe marcado.

Ou seja:

O adversário recebe já sob pressão.

É uma defesa baseada em ocupação espacial.


Eixo X

Average Arriving Pressure %

Quanto maior...

...mais frequentemente um defensor acelera para pressionar durante ou logo após o passe.

Ou seja:

pressão dinâmica.

Não é estar perto.

É chegar.


Traduzindo em linguagem sistêmica

Existe uma enorme diferença entre:

"eu já ocupava esse espaço"

e

"eu percorri 8 metros para pressionar."

Embora ambas contem como pressão.

Mas são mecanismos totalmente diferentes.


O tamanho das bolhas

Outro detalhe importante.

Quanto maior a bolha...

...mais comum aquela interação entre sistemas acontece.

Por exemplo:

4-3-3 vs 4-2-3-1

é extremamente frequente.


O que significa cada quadrante

Inferior esquerdo

Baixa pressão no recebimento

Baixa pressão chegando

São jogos relativamente "limpos".

Muito tempo.

Muito espaço.

Pouco caos.

Exemplo:

4-2-3-1 vs 5-4-1


Superior esquerdo

Alta pressão no recebimento

Baixa chegada

Isso significa:

os defensores já estavam posicionados.

Não precisaram correr.

É um pressing altamente posicional.

Muito associado ao:

  • Guardiola
  • Arteta
  • alguns momentos do Barcelona

Aqui a organização vence a corrida.


Inferior direito

Pouca pressão inicial

Muita chegada

Agora aparece outra filosofia.

O receptor recebe relativamente livre...

...mas imediatamente alguém explode para pressionar.

É típico de:

Klopp

Red Bull

algumas equipes italianas modernas.

Muito baseada em aceleração.


Superior direito

O quadrante mais interessante.

Alta pressão no recebimento

  •  

Alta pressão chegando.

Ou seja:

o receptor já recebe marcado...

E ainda chega outro defensor.

Isso cria:

pressão dupla.

É exatamente onde aparecem várias estruturas envolvendo linha de cinco.


O dado mais importante do gráfico

Observe quem domina o canto superior direito.

Quase todos envolvem:

5-2-2-1

5-2-1-2

5-2-2-1

5-2-2-1

5-2-1-2

Isso não é coincidência.


Por quê?

Porque a linha de cinco resolve um problema histórico do pressing.

Ela permite que:

os alas saltem...

sem destruir a última linha.

Na linha de quatro:

quando o lateral salta...

abre-se imediatamente profundidade.

Na linha de cinco:

o zagueiro lateral fecha.

Então o ala pode pressionar muito mais agressivamente.


Isso aumenta simultaneamente:

Pressure on receipt

e

Arrival pressure.


Existe uma interpretação ainda mais profunda

Esse gráfico mede algo parecido com...

Energia potencial

versus

Energia cinética.


Receipt Pressure

é energia potencial.

A equipe já ocupou o espaço.

Já preparou a armadilha.


Arrival Pressure

é energia cinética.

Alguém transforma corrida em pressão.


As melhores equipes modernas conseguem combinar as duas energias.


O aspecto cognitivo

Aqui existe um ponto enorme.

O cérebro toma decisões antes de tocar na bola.

Quando o jogador percebe:

"já tem alguém perto"

o cérebro ativa um mapa motor.

Mas quando:

outro defensor chega durante o passe...

o cérebro precisa recalcular.

Isso aumenta enormemente:

erro técnico

erro perceptivo

erro temporal


Ou seja...

Arrival Pressure gera carga cognitiva.

Receipt Pressure gera restrição espacial.

São mecanismos diferentes.


A física do pressing

Imagine um sistema complexo.

Cada defensor cria um campo de influência.

Receipt Pressure

é um campo estático.

Arrival Pressure

é um campo móvel.

Quando ambos coexistem...

forma-se um gradiente de pressão.

É semelhante à dinâmica dos fluidos:

o portador da bola sente que o espaço "desaparece".

Não porque alguém tomou a bola.

Mas porque as linhas de fuga colapsaram.


Relação com o Jogo de Posição

O jogo de posição sempre falou sobre:

controlar espaços.

Esse gráfico mostra que controlar espaço não basta.

Hoje importa também controlar o tempo.

Tempo de chegada.

Tempo de aceleração.

Tempo de desaceleração.


Assim, o pressing moderno deixa de ser apenas espacial e passa a ser espaço-temporal.


Relação com a complexidade

Sob a ótica de Edgar Morin e Ilya Prigogine, o pressing pode ser visto como um sistema adaptativo complexo. A pressão não é um evento isolado, mas uma propriedade emergente da coordenação entre vários jogadores. O objetivo deixa de ser "roubar a bola" e passa a ser alterar continuamente o estado do sistema adversário, reduzindo suas opções de ação.

O ideal não é maximizar apenas um tipo de pressão, mas encontrar o equilíbrio entre estabilidade (ocupação) e instabilidade (chegada), gerando um sistema antifrágil, capaz de responder a diferentes formas de construção do adversário.

O impacto no futebol atual

As implicações práticas são enormes:

  1. O scouting tático ganha uma nova dimensão. Não basta saber que um time pressiona muito; é preciso saber como pressiona: por ocupação, por chegada ou por ambas.
  2. A preparação para o adversário torna-se mais específica. Contra equipes com alta Receipt Pressure, são fundamentais mobilidade e rotações para escapar de marcações posicionais. Contra equipes com alta Arrival Pressure, a velocidade de circulação e a orientação corporal antes da recepção tornam-se decisivas.
  3. O treinamento muda de foco. Em vez de apenas repetir gatilhos de pressão, treinadores podem treinar separadamente:
    • ocupação prévia dos espaços (estar lá);
    • sincronização das corridas de pressão (chegar);
    • combinação coordenada dos dois mecanismos.
  4. Novas métricas de desempenho coletivo. O futuro da análise provavelmente deixará de medir apenas volume de pressão e passará a medir a qualidade da coordenação entre "presença" e "chegada", aproximando a análise do comportamento real dos sistemas coletivos.

Na linha de investigação sobre sistemas complexos e formação de equipes, esta figura aponta para uma evolução conceitual importante: o pressing deixa de ser um atributo individual ("quem pressiona") e passa a ser uma propriedade emergente da geometria dinâmica da equipe. Essa mudança de perspectiva tem potencial para influenciar desde o desenho do modelo de jogo até os critérios de recrutamento, treinamento e avaliação de desempenho coletivo.



Leandro Zago - 24/07/2026

 

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O Jogo de Posição e o Counter Pressing

Alguns dos conceitos presentes no Jogo de Posição e como um de seus produtos o Counter Pressing, que cria alterações no Fluxo Natural do Jogo

“Eu odeio essa história de passar por passar, esse tiki-taka.
Não tem propósito. Você precisa passar a bola com uma
intenção clara, com o objetivo de chegar ao gol adversário.
 Não é passar a bola só por passar. Eu odeio o tiki-taka”
(Guardiola, 2014)

Conhecido em português como Jogo Posicional, o Jogo de Posição entrou em grande evidência nos últimos anos devido ao grande sucesso das equipes treinadas por Pep Guardiola (FC Barcelona e FC Bayern de Munique) não apenas pelo alto índice de aproveitamento de pontos disputados e conquista de títulos, mas também pela identidade única que esse treinador é capaz de materializar em suas equipes em ambientes diferentes, culturas diferentes e com jogadores diferentes. Muito conteúdo foi sendo incorporado no jogo dessas equipes ao longo da passagem de Guardiola, conseguindo uma permanente evolução no jogar, ampliando variações e melhorando a eficácia técnico – tática. Independentemente do esquema tático utilizado (afinal Guardiola se utiliza de 1-4-3-3, 1-3-4-3, 1-4-2-3-1, 1-3-3-4 e outros como matriz) os conceitos do jogo proposto estão sempre presentes.
Nas figuras abaixo, ainda não serão discutidas algumas questões fundamentais para o Jogo de Posição, como por exemplo, o “time” (tempo em inglês) das movimentações para a criação de apoios livres, a posição corporal de recepção da bola, a utilização dos dois lados (ambidestrismo) com a intenção de acelerar a circulação, a velocidade da bola no passe e a questão de passe no pé e no espaço.   

Figura 1 – Aumento de Apoios com ajustes Posicionais

O Jogo de Posição é essencialmente coletivo e cada jogador deve permanentemente estar a serviço da equipe para que haja potencialização das ações. Na Figura 1 (campo da esquerda), pode-se observar que os jogadores de linha estão ocupando o espaço de uma forma a torná-lo maior em largura (Amplitude) e comprimento (Profundidade) permitindo a criação de mais espaços internos (dentro do bloco defensivo do adversário), quesito importante para um jogo de posse de bola apoiada. Porém, somente aumentar o campo de jogo em largura e profundidade não é suficiente para construir um jogo apoiado eficaz, afinal, a exploração desse espaço interno depende de cumprir bem alguns requisitos que estão na base do Jogo de Posição. Com alguns ajustes posicionais, a estruturação do espaço permite a criação de 4 apoios (vamos considerar apoios as possibilidades de passes com um nível de dificuldade relativamente baixo) ao portador da bola (Figura 1, campo da direita), dobrando as possibilidades de passe e, consequentemente, exigindo mais jogadores e melhor organização do adversário para a recuperação da bola (partindo do pressuposto de que não ocorrerão erros básicos de decisão-ação por parte do portador da bola). Nessa situação hipotética, vamos considerar que o jogador em posse, escolheu o “Apoio 1” para passar a bola.

Figura 2 – Jogo pela Faixa Central

Com a escolha de passar a bola para o corredor central, a bola entra em um espaço que permite a criação de apoios em diversas direções, porém, é importante ressaltar que cada apoio possui suas próprias características. Na Figura 2 (campo da esquerda), o portador da bola tem 5 opções de passes, sendo 1 em progressão (Apoio 1), 2 laterais (Apoios 2 e 4) e 2 passes para trás (Apoios 3 e 5). Os Apoios 3 e 5 oferecem a possibilidade de retirada da bola da “Zona de Pressão” e os passes para os jogadores que estão dando Amplitude e Profundidade são de maior dificuldade. Ao escolher o Apoio 4, mesmo mantendo a bola ainda na faixa central, uma nova gama de possibilidades é criada com os ajustes posicionais em função do movimento da posição da bola. Nesse novo cenário (Figura 2, campo da direita) o Apoio 3 oferece um passe lateral sob pressão e os Apoios 2, 5 e 6 passes fora da Zona de Pressão para trás. Os Apoios 1 e 4 oferecem saída da Zona de Pressão com características diferentes. O Apoio 1 oferece saída lateral da pressão com possibilidade de progressão na faixa lateral, enquanto o Apoio 4 uma saída da pressão para a frente com a recepção da bola entre as linhas de marcação adversárias (Movimento “Entre Linhas”). A escolha por determinados apoios tem forte relação com o tipo de tomada de decisão do jogador e com o jogo da equipe, se há uma preferência por um jogo mais vertical ou de manutenção da posse de bola, se coloca a bola em disputa frequentemente ou se prefere jogar com bola sem coloca-la em disputa.


Figura 3 – Jogo pela Faixa Lateral

Há uma tendência do número de apoios ser reduzido na faixa lateral do campo por questões óbvias do limite físico do campo. As opções podem ser criadas para trás (Apoio 4), para a faixa central (Apoios 2 e 3) e para a frente (Apoio 1) como descrito na Figura 2 (campo da esquerda). A faixa lateral do campo, ao reduzir as possibilidades com bola, torna-se uma região propícia para a recuperação da bola, portanto é fundamental, além dos apoios em progressão (Apoio 5, por exemplo), a criação de apoios para a retirada da bola dessa zona, caso a pressão seja criada pela marcação (Apoio 3, por exemplo, fora da Zona de Pressão).

Figura 4 – Os Momentos do Jogo

As equipes de futebol estão permanentemente dentro do jogo em busca de uma organização que resolva as situações que vão se desenhando no confronto. Basicamente, a organização coletiva de uma equipe, pode ser dividida em 4 Momentos: Organização Ofensiva, Transição Defensiva, Organização Defensiva e Transição Ofensiva. Os comportamentos de jogo de uma equipe estão geralmente fluindo como na Figura 4.


Figura 5 – O Counter Pressing e a alteração do Fluxo dos Momentos do Jogo

Quando uma equipe exerce “Pressing” no momento da Organização Defensiva, objetiva recuperar a bola suprimindo as “Possibilidades Operacionais” do seu adversário, ou seja, se organiza para não permitir simultaneamente a (1) manutenção da posse de bola, a (2) progressão da bola em direção ao próprio gol e a (3) proteção de qualquer possibilidade de ataque à meta defendida. Para exercer o Counter Pressing, a equipe precisa suprimir essas “Possibilidades Operacionais” imediatamente após a perda da bola (no momento da Transição Defensiva), condição essa que se faz muito elaborada porque, neste instante do jogo, a sua organização posicional e operacional está toda voltada para a Organização Ofensiva. Portanto, para se ter êxito no Counter Pressing, a equipe precisa ter um tipo de organização para jogar o jogo com total conexão entre os 4 Momentos. Cada um dos 4 Momentos deve levar em conta a organização global do jogo, sem qualquer tipo de fracionamento entre Ataque, Defesa e Transição, tanto do ponto de vista Estrutural como Operacional.

Figura 6 – Reação Posicional e Operacional à Perda da Bola

Como exemplo, vamos retornar à situação apresentada pela Figura 2 (Figura 6, campo da esquerda) em que a equipe amarela está com a bola e possui 5 apoios. Após o erro de passe (sinalizado pela seta curva laranja, no campo da direita), os jogadores que eram apoios curtos (1 e 2) e o portador da bola (jogador que errou o passe), atacam imediatamente o jogador da equipe vermelha que interceptou o passe para buscar a recuperação imediata. O ataque a bola em 3 direções diferente elimina muitas possibilidades de ação do jogador da equipe vermelha. Os jogadores da equipe amarela distantes da bola recuperam o equilíbrio posicional e diminuem o campo de jogo adversário, fechando espaços centrais, sempre respeitando zonalmente uma ocupação coletiva, afinal o Counter Pressing objetiva a recuperação rápida da bola também para uma “Economia Complexa” de energia (física, técnica, tática e mental).


Figura 7 – Reação Posicional e Operacional à Perda da Bola
Após a perda da bola na Figura 7, o jogador da equipe vermelha é atacado por 4 jogadores (aqueles que eram os Apoios 1, 2 e 3 e o jogador que errou o passe), diminuindo o tempo e as possibilidades de ação adversária. Recuperar a bola na mesma zona que foi perdida, em pouquíssimo tempo, gera inúmeras vantagens como já foi descrito. Mas principalmente, a ocupação do espaço para atacar altera-se muito pouco do ponto de vista estrutural, permitindo uma nova sequência de ataque já iniciando com um bom nível de organização. Em compensação, a troca de posse de bola pode gerar desequilíbrios no adversário que podem ser aproveitados nos instantes iniciais desse novo ataque.
O Counter Pressing pode ser construído com referências zonais ou individuais, com pressão imediata na bola, na linha de passe ou com encaixes individuais. O que é fundamental é a conexão de todos os conceitos de todos os momentos do jogo e o sincronismo com que os movimentos individuais ocorrerão dentro de um contexto coletivo.

Referência Bibliográfica

Perarnau, Marti. Herr Pep. Idioma: Espanhol. Editora: Córner – Espanha. Assunto: Biografias. Edição: 1. Ano: 2014.

Para Mais Informações

Link 7: http://www.martiperarnau.com/tactica/differences-between-sacchis-klopps-and-guardiolas-counterpressing-concepts/

Leandro Zago