quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

A Essência Tática (e / ou Complexa?) do Jogo de Futebol

“É sabido que a água (H2O) é um meio essencial para

apagar o fogo, no entanto, se separarmos as suas

componentes, hidrogênio e oxigênio, qualquer uma destas

ao invés de apagar o fogo, incandesce-o ainda mais.”

(Karl Popper)

Muito se tem discutido no meio do futebol sobre metodologias de treino, principalmente no meio acadêmico (é sabido o distanciamento que este tem dos profissionais que vão a campo com suas equipes diariamente por motivos que não cabem aqui neste texto), na busca de aprimoramento dos métodos e neste momento transcendendo-se um pouco (até agora um pouco, mas com possibilidade de se tornar algo grandioso) e vislumbrando uma possível ruptura paradigmática. Novas propostas de estruturação do treinamento de futebol como a Periodização Tática construída pelo professor Vitor Frade da Universidade do Porto e apresentada para seus alunos há cerca de trinta anos vem contribuindo muito para essa contestação ao treinamento analítico, fragmentado e fez emergir um novo paradigma, o da Complexidade. Essa Teoria (a da Complexidade) tendo como um de seus expoentes o francês Edgar Morin propõe a integração, a interação, a relação entre ordem e desordem para uma reconstrução do conhecimento e para uma (re)organização num nível superior ao anterior.

Devido ao sucesso de José Mourinho (primeiro e até o momento o único treinador de Top adepto assumido da Periodização Tática) muitos aderiram ao método, porém sem o mesmo sucesso. Por colocarem a dominante tática como norteadora do processo, muitos incorreram no mesmo equívoco do paradigma cartesiano, fragmentaram o treino de outra forma negando as outras dominantes (técnica, física e mental) em maior ou menor grau para cada uma delas. Para Júlio Garganta (1997) “a dimensão tática ocupa o núcleo da estrutura de rendimento no futebol, pelo que a função principal dos demais fatores, sejam eles de natureza técnica, física ou psíquica, é a de cooperar no sentido de facultarem o acesso a desempenhos táticos de nível cada vez mais elevado”. Nesta frase do autor fica clara a interdependência entre as dominantes, atentando para o fato de que no processo de treinamento a equipe tenha como objetivo central atingir picos de "Performance de Jogo" e não simplesmente picos relacionados à dominante tática. Colocar a dominante tática como balizadora do processo ao invés da dominante física é um avanço no sentido de proporcionar um caráter mais específico, mas não se configura em mudança de paradigma (do cartesiano à complexidade) se não forem criados exercícios que correspondam a fractais do jogo para que todas as dominantes presentes no jogo se manifestem em simultâneo, de forma integrada e interada. Claro que esses exercícios estarão dentro de um projeto maior, pedagógico, com construção, desconstrução e reconstrução de comportamentos, evoluindo num espiral contínuo que tem o jogar que se pretende como modelo. Mini-jogos e jogos-reduzidos não são Periodização Tática, pois são propostos de forma aleatória e sem manter relação entre os conteúdos anteriores e posteriores ao longo de um espaço temporal e também por, na maioria das vezes, não estarem relacionados com a forma de jogar da equipe.

Faz-se necessário aos profissionais que trabalhem sob essa nova perspectiva considerarem todas as variáveis, aprofundarem-se no conceito de complexidade para que suas equipes não paguem com derrotas seus erros metodológicos. Cabe lembrar que o método tradicional está em um estágio multidisciplinar (talvez poucos no estágio interdisciplinar) e bem ou mal, se de forma adequada ou não acaba-se treinando técnica e tática (com o treinador), capacidades físicas (com o preparador físico) e psicológicas (com o profissional dessa área que está presente em muitos dos clubes atualmente), portanto o mérito estará em um trabalho transdisciplinar que não negue nenhuma das dominantes, e essa negação tem ocorrido com a dominante física pela “necessidade” de se mostrar que o trabalho sob esses conceitos é diferente. Será que o grande diferencial em relação ao trabalho de campo de José Mourinho não seja fazer com que suas equipes apresentem uma alta "Intensidade de Jogo" ao invés de uma alta "Intensidade Tática", como ele próprio denomina? Cuidados são necessários para que conceitos não sejam confundidos e atrasem novos modelos de se trabalhar com o futebol de Formação, de Alto Rendimento e de Rendimento Superior.

Referências Bibliográficas

Garganta, J. (1997) Modelação táctica do jogo de Futebol. Tese de Doutorado. Universidade do Porto.

Leandro Zago - CIEFuT


4 comentários:

Anônimo disse...

Olá Leandro!
Novamente, um ótimo texto! Parabéns!
Ao falar sobre essa perspectiva transdiciplinar e evidenciar as questões relativas à preparação física, fico muito motivado em continuar com meus estudos sobre o Jogo como forma de trabalho integral do jogo. Ou seja....não basta usar jogos....não basta fazer um "jogo físico", mas sim um jogo que possibilite que todas as demandas, didáticamente conhecidas como as vertentes Física, Técnico, Tática e Emocional seja trabalhadas, a final.... é impossível dissosiá-las de qqr ação humana, mas torna-se necessário, no caso do treinamento esportivo, ser capaz de saber controlá-las... saber o q se quer com cada um dos jogos, e mais: procurar formas de avaliar (controlar) se os objetivos estão sendo atingidos.
Abraços e novamente parabéns pelo espaço!
Lucas...

João Bárbara disse...

É verdade, uma óptimo texto. vale a pena ler.

Caro amigo, quero convidá-lo para visitar e porque não acompanhar o meu Blog.

João Bárbara

Anônimo disse...

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