segunda-feira, 16 de junho de 2014

Copa do Mundo 2014: Uma nova (?!) tendência de Organização Defensiva

O jogo em grande amplitude das equipes vem tendo como consequência uma preocupação sistemática de formas de responder com eficácia a esse conceito de ataque


“A ciência lida com problemas e, ao procurar respostas para eles,
não raramente faz emergir novas, ou renovadas,
questões sobre esse problema ou mesmo novos problemas.”

Antônio Damásio (1994)

Bloco alto, pressão alta e pressing no campo todo. Nesses primeiros jogos da Copa do Mundo do Brasil algumas seleções tem buscado outro caminho para o êxito. E têm conseguido boas vitórias. Será fruto da nova tendência do futebol? Uma “handebolização” do jogo? E por “handebolização” entenda-se defender com todos os jogadores (ou todos menos 1 ou 2) em organização defensiva a partir da Linha 4 (intermediária do campo de defesa). Após a recuperação da bola, contra-atacar rapidamente o gol adversário e se isso não for possível, ocupar o campo de ataque com muitos jogadores para manutenção e seleção da melhor jogada, afinal, provavelmente, seu adversário terá colocado todos (ou quase todos) os seus jogadores atrás da linha da bola. Na figura abaixo estão as linhas de marcação, sendo a Linha 1 a mais adiantada e a Linha 5 a mais recuada.


Figura 1 – Linhas de Marcação

Dentro dessa tendência coletiva, novas / antigas formas de estruturar o espaço de jogo passam a ser utilizadas, de maneira ressignificada, com novas possibilidades. Através do Posicionamento Médio das equipes (informação oficial da FIFA que define um ponto médio que representa todos os espaços ocupados pelo atleta dentro da partida), pode-se realmente avaliar a ocupação espacial com e sem bola, coletiva e individual das equipes.

Figura 2 – Informações do Jogo entre Holanda 5 vs 1 Espanha

Como pode-se observar na figura 2, o posicionamento médio da Seleção da Holanda, confirma o esquema tático dado pelos sites especializados em análise (1-5-2-1-2) e pelo site oficial a FIFA. O jogo por zona proporciona esse tipo de organização, pois tem a ocupação racional do espaço como referência.

Figura 3 – Informações do Jogo entre Costa Rica 3 vs 1 Uruguai

A Costa Rica também investiu numa Linha de Defesa com 5 jogadores, sendo que no caso dessa Seleção, os alas jogaram a maior parte do tempo na linha de defesa (figura 3). O trabalho ofensivo dos seus alas no campo de ataque foi menor em relação à Holanda, porém as duas seleções apresentaram alguns conceitos bem similares.

Figura 4 – Informações do Jogo entre México 1 vs 0 Camarões

A Seleção do México também se estruturou com uma Linha de Defesa mais larga, usando como esquema tático o 1-5-3-2 (figura 4). Diferentemente das duas seleções anteriores, o México teve maior tempo de posse de bola o que seu adversário, implicando em uma ocupação do espaço resultante do seu bloco mais adiantada. Após a apresentação do Posicionamento Médio e do Tempo de Posse de Bola dessas três seleções, pode-se constatar:
1. Algumas seleções tem optado por linhas estruturalmente mais largas (com 5 jogadores) ao invés de linhas menos largas (Linha de 4 jogadores, por exemplo) com sistemas de compensação para melhora no equilíbrio horizontal;
2. A “Linha de 5” vem como resposta ao aumento do número de equipes que trabalham em grande amplitude na fase de finalização;
3. O menor número de jogadores na linha de meio de campo aponta um menor investimento de energia de se recuperar a bola em espaços mais adiantados, como a zona central. A equipe assume a linha recuada como referência para recuperar a bola quando entra em organização defensiva;
4. As equipes começam a ter mais definição entre àqueles jogadores responsáveis pelo equilíbrio (balanço) defensivo na transição defensiva e pelo balanço ofensivo na transição ofensiva. Esses 2 grupos alternam a força de sua relação-interação nos momentos de transição e de organização;
5. A menor preocupação em recuperar a bola rapidamente nos casos da Holanda e da Costa Rica se expressa no menor tempo de posse de bola em relação aos seus adversários. Essas equipe tiveram como referência operacional de ataque a progressão rápida ao gol adversário e como princípio operacional de defesa impedir a progressão com pressão intensa na bola a partir da linha 4;
6. O México, com estruturação das linhas similar ao anteriormente citado, utilizou-se de referências operacionais diferentes. Manutenção com progressão apoiada na fase de ataque e recuperação rápida da bola na fase defensiva;
7. A qualidade e característica dos adversários tem interferência nessas variáveis, portanto assumir essas referências como padrão das equipes só se faz possível ao longo dos jogos.

Referências Bibliográficas

FIFA. Disponível em: http://pt.fifa.com/worldcup/matches/index.html . Acesso em: 15/06/2014.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Referências para a Ocupação do Espaço Sem Bola


1. Estruturando o Espaço de Jogo

Considerada por Júlio Garganta (1997) uma competência essencial e inerente aos Jogos Desportivos Coletivos (JDC), a estruturação do espaço de jogo emerge como uma componente fundamental no processo de construção de uma equipe desde o nível individual, manifestada na compreensão e ocupação de espaços mais interessantes por parte do atleta a cada situação problema que o jogo apresenta e na gestão coletiva do espaço de jogo, onde a equipe estrutura-se em campo com o intuito de obter vantagem espacial e numérica pelo maior tempo possível nas mais variadas zonas do campo.
A ocupação do espaço não acontece de forma aleatória, ela tem (ou pelo menos deve ter) um significado para o jogador e para a equipe que se auto-organiza o tempo todo em função dos objetivos do jogo. A Lógica do Jogo de Futebol (Leitão, 2004) é comum a todos os jogos e imutável, os caminhos para cumpri-la é que podem exigir meios diferentes e, o que apresenta uma enorme variação, é a forma como cada equipe se organiza em nível estratégico para vencer partidas e quais as referências que dão sustentação a essa organização estratégica.
Portanto, a criação de referências que norteará as decisões dos jogadores para que reajam em função de algo que seja comum a todos, possibilitando o jogo em equipe de forma concreta. Essa criação (seria construção?) de referências se dá a partir das vivências dirigidas que o treinador proporciona à equipe através dos treinamentos e de um encadeamento lógico entre os conteúdos que farão parte do dia-a-dia da equipe.    

2. O Jogo Coletivo através das Referências

Segundo Amieiro (2005), a organização defensiva só conseguirá ser verdadeiramente coletiva se as ações tático - técnicas realizadas por cada um dos onze jogadores forem perspectivadas em função de uma idéia comum, respeitando um referencial coletivo, em que as tarefas individuais dos jogadores se relacionam e regulam entre si. O autor ainda afirma que apenas assim o “todo” (a equipe que se defende) conseguirá ser maior que a soma das partes que o constituem (comportamentos tático-técnicos de cada atleta).
Quanto o autor fala sobre “idéia comum” ou “referencial coletivo” é preciso entender que não está se referindo a automatismos fechados, ou algo já estabelecido de forma estanque, mas a princípios que norteiam a ação coletiva da equipe e por conseqüência as ações individuais dos atletas nela inseridos. Pode-se constatar isso no trecho seguinte da sua frase em que se refere às interações entre jogadores (quando diz “relacionam”) e ao processo de feedback (quando diz “regulam”) que ocorre permanentemente durante as ações coletivas e individuais dos jogadores.
Portanto faz-se necessário construir e definir princípios que balizem os comportamentos coletivos (princípios de jogo), visto que o jogo pelo seu caráter imprevisível não permite ações planejadas em sua plenitude, pois vai sendo construído conforme as respostas que seus jogadores vão oferecendo pontualmente naquelas situações. Respostas essas que surgem da interação dos mesmos com sua equipe, com o adversário, com a posição da bola e de um número muito alto de outras variáveis que estão nele inseridos.

3. O Processo de Construção das Referências

A simples informação não altera comportamentos e estes demoram muito tempo para serem alterados (FRADE, 2004). Cabe ao treinador direcionar esses comportamentos para o modelo de jogo que pretende adotar, através de exercícios com complexidade crescente, sempre atuando na zona proximal de conhecimento do atleta com um objetivo final muito definido. O quão elaborado será o modelo de jogo depende da qualidade com que esse processo será aplicado e do conhecimento que o treinador tem sobre o jogo.
A opção por este ou aquele conjunto de referências dependerá de fatores como o Modelo de Jogo idealizado pelo treinador, o nível em que se encontra o conhecimento da equipe sobre o jogo, a integração entre estes dois fatores anteriormente citados, entre outros.
O objetivo é que a equipe apresente respostas coletivas para a maior quantidade possível de situações que estejam presentes nos quatro momentos do jogo: com a bola, sem a bola, transição defesa - ataque e transição ataque - defesa. Nessa proposta uma equipe pode ter a bola, mas, por estar com vantagem no placar, não quer dar profundidade ao jogo e quer defender-se com a posse. Suas movimentações são bem diferentes de quando ela precisa marcar gol. Os princípios de jogo estão ligados aos hábitos da equipe, que são resultado da interação dos hábitos individuais dos jogadores, portanto aí deve estar focada a intervenção do processo de treino. Para Frade (2002), o hábito é um saber-fazer que se adquire na ação, portando vivenciar os devidos princípios de uma forma hierarquizada e sistematizada é fundamental para que o objetivo final, ou seja, a implantação do modelo de jogo idealizado pelo treinador baseado no contexto em que se encontra, materialize-se em campo de forma condizente com a proposta inicial.    

4. Algumas Referências do Espaço 

Figura 1 – Plataforma Tática 1-4-4-2 Zonal (vermelha)
  
Pode-se observar (figura 1) que a equipe que está sem bola (vermelha) respeita algumas referências para a ocupação do espaço quando sem bola. Algumas delas são:
- a posição da bola: independente da posição ocupada pela equipe azul quando em posse da bola, a equipe vermelha irá se comportar em função de seus próprios jogadores;
- lado fraco: a faixa contrária à bola fica desocupada momentaneamente para que mais jogadores ocupem uma área entre a bola e o gol (flutuação e compactação como princípios estruturais sendo realizadas nesse caso);
- quadrantes: a ocupação dos quadrantes se dá de forma equilibrada, porém prioritária (espaços de maior valor) permitindo criar superioridade numérica se necessário;
- linhas de marcação: a orientação para a estruturação da marcação por zona é a formação de linhas que permitem maior equilíbrio horizontal.

5. Integrando as Referências

É importante frisar que as referências para a estruturação do espaço sem bola devem estar relacionadas com as referências para a estruturação do espaço com bola e com todas as outras referências (operacionais, por exemplo) de forma que interajam potencializando o efeito uma da outra e nunca atuando de maneira concorrente. Outro detalhe que vale a pena ressaltar é que essas referências citadas acima estão baseadas numa marcação por zona e, caso seja feita a opção por uma marcação individual ou mista deve-se buscar outras referências. Marcar em função da posição da bola (zona) para alguns treinadores é considerado desvantajoso pela grande velocidade que a mesma pode atingir, porém, ao optar pela marcação individual aumenta-se o número de referências (onze), sendo que essas (os jogadores) buscam a desestruturação da equipe que os marca.
Caso algum(ns) jogador(es) não estejam com os princípios daquele momento assimilados, pode(m) apresentar respostas incongruentes com os objetivos momentâneos da equipe, realizando movimentações para regiões em que a pressão do adversário é mais intensa, aumentando os riscos de perder a bola e não colaborando com a meta coletiva estabelecida para aquela pontual situação, a manutenção da posse de bola simplesmente. E que fique bem claro com esse parágrafo que “estar defendendo” ou “estar atacando” independe de ter ou não a bola, pelo caráter indivisível que o jogo apresenta ao contemplar os quatro momentos anteriormente citados que se manifestam intimamente relacionados.
Independente das escolhas do treinador por esta ou aquela forma de jogar, só com referências bem definidas que o caráter coletivo da equipe será manifestado.

Referências Bibliográficas

Amieiro, N. (2005) Defesa à Zona no Futebol: Um pretexto para refletir sobre o jogar ... bem, ganhando! Edição do Autor. 2005.

Frade, V. (2002) Apontamentos das aulas de Metodologia Aplicada II, Opção de Futebol. FCDEF-UP. Porto. Não publicado.

Frade, V. (2004) Apontamentos das aulas de Metodologia Aplicada II, Opção de Futebol. FCDEF-UP. Porto. Não publicado.

Garganta, J. M. (1997) Modelação Tática do Jogo de Futebol: estudo da organização da fase ofensiva em equipes de alto rendimento. 150 f. Tese (Doutorado). Faculdade de Ciência do Desporto e Educação Física, Universidade do Porto, Porto.

Leitão, R. A. A. (2004) Futebol: análises qualitativas e quantitativas para verificação e modulação de padrões e sistemas complexos de jogo. UNICAMP, Campinas.

Mourinho, J. (2003) Entrevista ao programa <2 parte=""> da SporTV. 14 de maio de 2003.