quarta-feira, 2 de abril de 2014

Referências para a Ocupação do Espaço Sem Bola


1. Estruturando o Espaço de Jogo

Considerada por Júlio Garganta (1997) uma competência essencial e inerente aos Jogos Desportivos Coletivos (JDC), a estruturação do espaço de jogo emerge como uma componente fundamental no processo de construção de uma equipe desde o nível individual, manifestada na compreensão e ocupação de espaços mais interessantes por parte do atleta a cada situação problema que o jogo apresenta e na gestão coletiva do espaço de jogo, onde a equipe estrutura-se em campo com o intuito de obter vantagem espacial e numérica pelo maior tempo possível nas mais variadas zonas do campo.
A ocupação do espaço não acontece de forma aleatória, ela tem (ou pelo menos deve ter) um significado para o jogador e para a equipe que se auto-organiza o tempo todo em função dos objetivos do jogo. A Lógica do Jogo de Futebol (Leitão, 2004) é comum a todos os jogos e imutável, os caminhos para cumpri-la é que podem exigir meios diferentes e, o que apresenta uma enorme variação, é a forma como cada equipe se organiza em nível estratégico para vencer partidas e quais as referências que dão sustentação a essa organização estratégica.
Portanto, a criação de referências que norteará as decisões dos jogadores para que reajam em função de algo que seja comum a todos, possibilitando o jogo em equipe de forma concreta. Essa criação (seria construção?) de referências se dá a partir das vivências dirigidas que o treinador proporciona à equipe através dos treinamentos e de um encadeamento lógico entre os conteúdos que farão parte do dia-a-dia da equipe.    

2. O Jogo Coletivo através das Referências

Segundo Amieiro (2005), a organização defensiva só conseguirá ser verdadeiramente coletiva se as ações tático - técnicas realizadas por cada um dos onze jogadores forem perspectivadas em função de uma idéia comum, respeitando um referencial coletivo, em que as tarefas individuais dos jogadores se relacionam e regulam entre si. O autor ainda afirma que apenas assim o “todo” (a equipe que se defende) conseguirá ser maior que a soma das partes que o constituem (comportamentos tático-técnicos de cada atleta).
Quanto o autor fala sobre “idéia comum” ou “referencial coletivo” é preciso entender que não está se referindo a automatismos fechados, ou algo já estabelecido de forma estanque, mas a princípios que norteiam a ação coletiva da equipe e por conseqüência as ações individuais dos atletas nela inseridos. Pode-se constatar isso no trecho seguinte da sua frase em que se refere às interações entre jogadores (quando diz “relacionam”) e ao processo de feedback (quando diz “regulam”) que ocorre permanentemente durante as ações coletivas e individuais dos jogadores.
Portanto faz-se necessário construir e definir princípios que balizem os comportamentos coletivos (princípios de jogo), visto que o jogo pelo seu caráter imprevisível não permite ações planejadas em sua plenitude, pois vai sendo construído conforme as respostas que seus jogadores vão oferecendo pontualmente naquelas situações. Respostas essas que surgem da interação dos mesmos com sua equipe, com o adversário, com a posição da bola e de um número muito alto de outras variáveis que estão nele inseridos.

3. O Processo de Construção das Referências

A simples informação não altera comportamentos e estes demoram muito tempo para serem alterados (FRADE, 2004). Cabe ao treinador direcionar esses comportamentos para o modelo de jogo que pretende adotar, através de exercícios com complexidade crescente, sempre atuando na zona proximal de conhecimento do atleta com um objetivo final muito definido. O quão elaborado será o modelo de jogo depende da qualidade com que esse processo será aplicado e do conhecimento que o treinador tem sobre o jogo.
A opção por este ou aquele conjunto de referências dependerá de fatores como o Modelo de Jogo idealizado pelo treinador, o nível em que se encontra o conhecimento da equipe sobre o jogo, a integração entre estes dois fatores anteriormente citados, entre outros.
O objetivo é que a equipe apresente respostas coletivas para a maior quantidade possível de situações que estejam presentes nos quatro momentos do jogo: com a bola, sem a bola, transição defesa - ataque e transição ataque - defesa. Nessa proposta uma equipe pode ter a bola, mas, por estar com vantagem no placar, não quer dar profundidade ao jogo e quer defender-se com a posse. Suas movimentações são bem diferentes de quando ela precisa marcar gol. Os princípios de jogo estão ligados aos hábitos da equipe, que são resultado da interação dos hábitos individuais dos jogadores, portanto aí deve estar focada a intervenção do processo de treino. Para Frade (2002), o hábito é um saber-fazer que se adquire na ação, portando vivenciar os devidos princípios de uma forma hierarquizada e sistematizada é fundamental para que o objetivo final, ou seja, a implantação do modelo de jogo idealizado pelo treinador baseado no contexto em que se encontra, materialize-se em campo de forma condizente com a proposta inicial.    

4. Algumas Referências do Espaço 

Figura 1 – Plataforma Tática 1-4-4-2 Zonal (vermelha)
  
Pode-se observar (figura 1) que a equipe que está sem bola (vermelha) respeita algumas referências para a ocupação do espaço quando sem bola. Algumas delas são:
- a posição da bola: independente da posição ocupada pela equipe azul quando em posse da bola, a equipe vermelha irá se comportar em função de seus próprios jogadores;
- lado fraco: a faixa contrária à bola fica desocupada momentaneamente para que mais jogadores ocupem uma área entre a bola e o gol (flutuação e compactação como princípios estruturais sendo realizadas nesse caso);
- quadrantes: a ocupação dos quadrantes se dá de forma equilibrada, porém prioritária (espaços de maior valor) permitindo criar superioridade numérica se necessário;
- linhas de marcação: a orientação para a estruturação da marcação por zona é a formação de linhas que permitem maior equilíbrio horizontal.

5. Integrando as Referências

É importante frisar que as referências para a estruturação do espaço sem bola devem estar relacionadas com as referências para a estruturação do espaço com bola e com todas as outras referências (operacionais, por exemplo) de forma que interajam potencializando o efeito uma da outra e nunca atuando de maneira concorrente. Outro detalhe que vale a pena ressaltar é que essas referências citadas acima estão baseadas numa marcação por zona e, caso seja feita a opção por uma marcação individual ou mista deve-se buscar outras referências. Marcar em função da posição da bola (zona) para alguns treinadores é considerado desvantajoso pela grande velocidade que a mesma pode atingir, porém, ao optar pela marcação individual aumenta-se o número de referências (onze), sendo que essas (os jogadores) buscam a desestruturação da equipe que os marca.
Caso algum(ns) jogador(es) não estejam com os princípios daquele momento assimilados, pode(m) apresentar respostas incongruentes com os objetivos momentâneos da equipe, realizando movimentações para regiões em que a pressão do adversário é mais intensa, aumentando os riscos de perder a bola e não colaborando com a meta coletiva estabelecida para aquela pontual situação, a manutenção da posse de bola simplesmente. E que fique bem claro com esse parágrafo que “estar defendendo” ou “estar atacando” independe de ter ou não a bola, pelo caráter indivisível que o jogo apresenta ao contemplar os quatro momentos anteriormente citados que se manifestam intimamente relacionados.
Independente das escolhas do treinador por esta ou aquela forma de jogar, só com referências bem definidas que o caráter coletivo da equipe será manifestado.

Referências Bibliográficas

Amieiro, N. (2005) Defesa à Zona no Futebol: Um pretexto para refletir sobre o jogar ... bem, ganhando! Edição do Autor. 2005.

Frade, V. (2002) Apontamentos das aulas de Metodologia Aplicada II, Opção de Futebol. FCDEF-UP. Porto. Não publicado.

Frade, V. (2004) Apontamentos das aulas de Metodologia Aplicada II, Opção de Futebol. FCDEF-UP. Porto. Não publicado.

Garganta, J. M. (1997) Modelação Tática do Jogo de Futebol: estudo da organização da fase ofensiva em equipes de alto rendimento. 150 f. Tese (Doutorado). Faculdade de Ciência do Desporto e Educação Física, Universidade do Porto, Porto.

Leitão, R. A. A. (2004) Futebol: análises qualitativas e quantitativas para verificação e modulação de padrões e sistemas complexos de jogo. UNICAMP, Campinas.

Mourinho, J. (2003) Entrevista ao programa <2 parte=""> da SporTV. 14 de maio de 2003.

terça-feira, 11 de março de 2014

Do Modelo de Jogo ao Jogo: uma proposta conceitual


1. O que é Modelo de Jogo ?

O conceito de modelo de jogo (MJ) aparece nesse momento muito pertinente nas literaturas buscadas pelos profissionais que estão sempre à procura de evolução sobre questões ligadas aos esportes coletivos e almejam tornar cada vez mais consistente sua filosofia de trabalho. Enquanto no Brasil pouquíssimo material foi produzido sobre o tema, na Europa ele é alvo de discussões há muito tempo, como podemos observar nesse trecho escrito por Teodurescu em 1984, em que o autor considera que “o modelo de jogo é uma referência, construída a partir de outras referências de ordem de rendimento superior, que postulam um conjunto de ações individuais e coletivas dos jogadores e da equipe, integradas com o espírito físico e psíquico característico do jogo”. Na década de 90, o autor Júlio Garganta escreveu bastante sobre o assunto, devido à relação que o mesmo tem com sua proposta metodológica de ensino para os jogos desportivos coletivos. A partir do pressuposto que o processo de ensino / aprendizagem deve pautar-se pela eficácia, isto é, pela capacidade de produzir os efeitos pretendidos, torna-se imprescindível a existência de referenciais que, para além de possibilitarem a definição dos objetivos, orientem a seleção dos meios e métodos mais adequados para alcançá-los (Garganta, 1985). Complementando este conceito, defende que o processo de ensino do Futebol deve reportar-se a um conjunto de princípios ou idéias (modelos), que expressam os aspectos a que se atribui maior importância e que se pretende ver cumpridos.

2. Definições de Modelo de Jogo na Universidade e no Campo

Recentemente, José Mourinho (2006), afirmou que ter um modelo de jogo definido é o mais importante para uma equipe de futebol, e tal modelo é um conjunto de princípios que dão organização a sua equipe por isso deve ter relevância especial desde o primeiro dia de trabalho. O treinador português define MJ como a direção que faz com que os jogadores possam nos quatro momentos do jogo (veremos mais à frente este tema), pensar sob a mesma perspectiva.
Para o treinador Rafa Benitez (2007) o MJ é a finalidade a que se destinam os treinamentos para dar uma identidade de jogo à equipe. Leitão (2009) define MJ como a orientação (norte) que permite a todos os jogadores de uma equipe ter a mesma leitura do jogo, de forma organizada em todos os momentos do jogo.
O treinadores e os autores, em publicações com intervalos maiores ou menores de tempo referem-se ao conceito de MJ com muita proximidade, apesar de utilizam-se de algumas palavras distintas para descrevê-lo, de acordo com o enfoque com que cada um tem sobre o mesmo tema.


3. O Conteúdo do Modelo de Jogo

Segundo Bayer (1986), os princípios de jogo representam a fonte da ação, definem as propriedades invariáveis sobre as quais se realizarão as estruturas fundamentais do desenrolar dos acontecimentos.  Os princípios de jogo aplicados pelo jogador e pela equipe devem manter uma congruência muito grande entre eles e com o Modelo de Jogo pretendido para a equipe. Castelo (1996) afirma que o MJ compreende a evolução dinâmica e criativa do jogo ao longo do seu processo de desenvolvimento. Durante a evolução do jogo, vão se alternando as exigências de resposta a cada situação problema, tornando imprescindível coordenação entre as resposta dos jogadores e suas equipes para que os padrões coletivos comecem a dar identidade ao sistema (equipe).

Figura 1 – Grandes Princípios segundo Vítor Frade (2002)
Sem aprofundar-se na discussão em relação às bolas paradas (se é que podemos assim chamar) se pertencem ou não a um dos quatro primeiros grupos (figura 1), pode-se observar que o Professor Vítor Frade (2002) dividiu toda a estrutura acontecimental do jogo em quatro grandes momentos, como já havia sido citado por José Mourinho. Para o autor, todas as ações do jogo estão contidas em um desses quatro momentos, por ele denominados de Grandes Princípios. O nome Grandes Princípios vem em decorrência de, dentro de cada deles, existirem os respectivos Princípios de Jogo, que contém os seus respectivos Sub-Princípios, onde se encontram os Sub-Princípios dos Sub-Princípios e assim sucessivamente. Todos subjugados ao MJ e respeitando uma hierarquia de acordo com o nível em que se encontra.        

4. O Processo de Construção de um Modelo de Jogo

O modelo de jogo é o núcleo de toda a periodização tática, sem a definição do modelo torna-se descontextualizado o trabalho sob a perspectiva da periodização tática. O foco nesse novo cenário está na forma de jogar que será construída ao longo da temporada, visando uma regularidade competitiva e evolução constante nos comportamentos da dominante tática para que se atinja o “pico do modelo de jogo” como objetivo do processo.

Figura 2 – Do Modelo Idealizado ao Modelo Concreto

A periodização deve englobar a especificidade do MJ adotado em aspectos cognitivos, físicos, táticos, técnicos e psicológicos, além dos princípios e sub-princípios de jogo que serão aplicados pela equipe nas organizações ofensiva, defensiva e nas transições defesa - ataque e ataque-defesa. A modelação (figura 2) é um processo que acontece quando o Modelo Idealizado, e que guia o processo de treinamento, vai se concretizando em comportamentos apresentados de forma individual e coletiva com uma regularidade que permite tornar a equipe um modelo único.
Construir um MJ a partir das metodologias tradicionais soa incoerente, porque de um lado estão as teorias pautadas na complexidade, integração (MJ) e de outro, processos fragmentadores, característica comum aos métodos de treinamento atualmente utilizados em que tática, técnica, preparação física e emocional são trabalhadas de maneira isolada.
 
5. Ter ou não um Modelo de Jogo é uma opção ?

Portanto, modelo de jogo não é somente a tática usada pelo treinador, mas sim um conjunto de ações, pensamentos e princípios seguidos pela equipe. Ao elaborar os treinos, deve-se levar em conta o MJ previamente definido, ou seja, o processo de treinamento deve englobar exercícios que seguem o MJ escolhido pelo treinador. E que fique claro que todas as equipes possuem um MJ, independente do método de treino aplicado e do conhecimento do treinador sobre o tema, o que poderá variar é o quão elaborado (ou não) é o MJ que determinada equipe apresenta no campo. Colocar onze jogadores no campo defensivo e “dar chutões” ou jogar realizando uma zona pressionante são dois MJ com um grau de complexidade bem distinto, desde a forma como se operacionalizar um treinamento para construí-los, passando pela assimilação dos atletas, até sua aplicação no jogo.

O treinador, na fase inicial do trabalho deve definir o modelo de jogo da equipe junto com sua comissão técnica, levando em conta sua idéia de jogo, a característica dos jogadores, os princípios de jogo, a organização funcional e a estrutura do clube. O modelo de jogo deve ter objetivos bem definidos e bem claros para todos, para que cheguem a atingir tais metas. Porém, devem saber que esse modelo de jogo pode sofrer ajustes, para que haja um aperfeiçoamento gradativo.   

Referências Bibliográficas

Amieiro, N. (2005) Defesa à Zona no Futebol: Um pretexto para refletir sobre o jogar ... bem, ganhando! Edição do Autor.

Bayer, C (1986) La enseñanza de los juegos desportivos colectivos. Hispano Europea. Barcelona.

Frade, V. (2002) Apontamentos das aulas de Metodologia Aplicada II, Opção de Futebol. FCDEF-UP. Porto. Não publicado.

Oliveira, B. et al (2006) Mourinho: Porquê tantas vitórias?. Editora Gradiva.

Teodurescu, L. (1984) Problemas de Teoria e Metodologia nos Jogos Desportivos. Livros Horizonte.