sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

As Estruturas e as Interações da linha de meio campo e de ataque da equipe do FC Barcelona

A partir das Estruturas construídas no campo de jogo muitas dinâmicas acontecem na Interação entre os jogadores resultando em um futebol atrativo e efetivo

“Existe alguma coisa a mais na vida, alguma coisa
não-material e irredutível – um padrão de organização”
(Capra, 2006)

O Futebol apresentado pelo Barcelona, nos últimos sete anos principalmente, tem chamado a atenção de todos que acompanham essa equipe. Pela forma como os excelentes resultados que vem sendo obtidos (em uma parte considerável desses resultados há uma grande diferença de gols pró equipe catalã) são construídos, de uma maneira muito consistente, alguns fatores emergem como destaques positivos. Dentro de uma cultura de jogo muito definida (pode-se dizer também que há uma cultura do clube que engloba uma cultura de jogo com interferência bidirecional), os corportamentos de jogo (em sua maioria) são balizados por essa cultura, tendo por consequência padrões de movimentação que, apesar de bem sistematizados, interagem bem com o jogo do adversário criando as adequações necessárias na grande maioria das vezes em que é preciso para resolver as adversidades que o jogo propõe.  
O Jogo do Barcelona é contruído numa Plataforma Tática de 1-4-3-3 com um goleiro muito ativo dentro dos quatro momentos do jogo (organização ofensiva, transição ataque-defesa, organização defensiva e transição defesa-ataque), uma linha de quatro jogadores a sua frente muito habituada a jogar “alta” (avançada), um meio campo com três jogadores disposto estruturalmente em um triângulo apontado para trás e três atacantes que mantêm com uma certa regularidade também uma estrutura em triângulo, porém apontada para a frente. O foco desse artigo está prioritariamente nesses dois triângulos formados pelos seis jogadores (linha de meio campo e de ataque), porém sem jamais desconsiderar que sistemicamente estão intimamente relacionados com as dinâmicas de toda a equipe, como será visto a seguir.  
 
Figura 1 – A regularidade da emergência das Estruturas
Como pode-se observar na Figura 1, as estruturas estão presentes nas mais diversas situações e obviamente deformam-se, aproximam-se, sobrepõe-se, se afastam, ou seja, realizam uma gama muito ampla de movimentos para resolver os problemas propostos pelo jogo.

Figura 2 – Estruturação do espaço com bola

Na Figura 2, o Barcelona está em Organização Ofensiva, com um relativamente bom espaço efetivo de jogo e com mais jogadores para trás da linha da bola (campo grande para trás), criando uma situação mais favorável à circulação e manutenção da posse do que de progressão. É interessante observar a reação da equipe como um todo e dos jogadores (elementos) se comportando simultaneamente para atender essa necessidade (manutenção da bola). São as convenções coletivas da qual todos compactuam, construídas dentro do processo de treinamento que alguns jogadores dessa equipe vivenciam desde o início da formação nas categorias de base do clube, que permitem tal feito com tanta eficácia.

Figura 3 – Sobreposição de Estruturas e Compactação

Com a defesa avançada (tentando diminuir o espaço efetivo de jogo do adversário “dentro” da equipe) há uma sobreposição devido a subida dos meias (Iniesta e Xavi) que estão tentando pressionar a bola para desqualificar (no sentido de diminuir a qualidade) qualquer tentativa do adversário. É o “campo pequeno a defender” neste caso, porém com um espaço muito grande para ser gerido nas costas da linha de defesa. Pode-se observar que mesmo em situações como esta, a Plataforma Tática 1-4-3-3 está mantida e muitas estruturas em trângulo (estruturação do espaço típica do modelo de jogo da equipe) poderiam ser construídas selecionando aleatoriamente quaisquer três jogadores. 


Figura 4 – Manutenção das Estruturas deformadas

Assim como nos outros três momentos, em organização ofensiva, os jogadores se relacionam intra (relações internas do setor) e inter (relações com outros setores) setorialmente para que a macro-estrutura Equipe possa atingir seus objetivos (marcar gols e vencer a partida). Na tentativa de desequilibrar o adversário, várias trocas acontecem, jogadores “atacam” espaços vazios, o lateral oposto mantêm a boa amplitude da equipe, atacantes se aproximam e se afastam, alguns jogadores ficam em zonas sem pressão para uma necessidade de retirada da bola da zona de pressão e outra infinidade de possibilidades. Segundo Capra (2006), a estrutura do organismo apenas “condiciona o curso de suas interações e restringe as mudanças estruturais que as interações podem desencadear nele”. Portanto, a estrutura deve ser vista como meio, não como fim. A finalidade da preparação para o jogo deve sempre manter relação com os objetivos do jogo (marcar gols e impedir os gols do adversário) e a contrução de estruturas tanto fixas como móveis deve estar subjulgada a isso.

Figura 5 – A mobilidade como princípio estrutural de ataque do FC Barcelona

Há interações permanentes em uma equipe de futebol. Em todas, sem exceção. A qualidade das interações é algo único, que pertence a cada equipe, sendo um dos fatores que dão identidade à ela. Os princípios de jogo que regem essas estruturas vão diferenrenciá-las em fixas e móveis (figura 5). Basicamente, nas estruturas fixas poucas trocas acontecem (como no caso da linha de defesa do Barcelona) com uma maior rigidez posicional e as estruturas móveis são caracterizadas por muitas trocas (linha de meio campo do Barcelona, principalmente os jogadores Xavi e Iniesta). Interessante como independente do tipo de estrutura da equipe, a mobilidade ocorre sem descaracterizá-la também organizacionalmente.    
Ao direcionar o olhar para as estruturas, deve-se ter muito claro que existe uma dinâmica permanente que a mantêm, não é algo estanque, parado, morto. E a “vida” que a equipe manifesta surge desse movimento constante.

Referência Bibliográfica
Capra, F. (2006) A Teia da Vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Editora Cultrix.

Leandro Zago

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Pressionando alto em três diferentes Plataformas Táticas

Com o conceito da estruturação do espaço bem definido e a boa compreensão das inter-relações pode-se pressionar alto em várias Plataformas Táticas

Desenvolver conteúdos durante o processo de treino mostra-se primordial não somente por parecer “pedagogicamente correto” ao olhos de todos, mas por estar fortemente ligado à qualidade do trabalho e aos resultados obtidos. Compreender essa idéia derruba o antigo paradigma de que deve-se dar ênfase a boa formação para jovens atletas em detrimento à conquista de títulos nas categorias de base. Para equipes profissionais, o desenvolvimento de conteúdos dará sustentação ao trabalho e continuará a formação dos atletas (que não termina quando ele finaliza seu ciclo nas categorias de base) agregando valor ao clube que terá permanentemente seus jogadores evoluindo.
Pode-se ter como exemplo, o conceito da estruturação do espaço em função da posição da bola (marcação zonal), de fechar os espaços como equipe (Amieiro, 2005) e as possibilidades de interações posicionais que surgem a partir daí, criando variações no desenho do meio de campo e da linha de ataque que permitirão à equipe (ao treinador) mudar de acordo com a necessidade que o jogo exige. A proposta de pressionar na linha 1 (pressionar alto) apresentada nas três figuras a seguir, com 5 linhas de marcação (pressionando em profundidade) pode ser utilizada, por exemplo, sempre que for necessário recuperar rápido a posse da bola, dando pouco tempo ao adversário para tomar decisões. Os ajustes estruturais que acontecem de uma plataforma para outra geram mudanças nas interações, porque estrutura e padrão estão sempre intimamente relacionados. A partir das figuras, poderá surgir a discussão sobre pressão e pressing. Como os conceitos sobre essa discussão não estarão presentes, o termo pressão foi utilizado.

Na figura 1, a equipe que ataca no sentido da seta ao lado do campo está estruturada em um 1-3-4-1-2 com dois volantes, dois alas e um meia ofensivo no meio de campo. Seguem abaixo as dinâmicas de cada setor da equipe.   
- Goleiro (vermelho): fora da grande área
- Linha defensiva (azul): próxima ao meio campo, com os 3 zagueiros realizando uma flutuação para o lado da bola
- Meio Campo (azul escuro): o ala do lado da bola fecha a paralela, o ala do lado oposto a virada de jogo (caso a bola chegue no lateral que está aberto este ala temporiza a jogada) e o meia ofensivo ocupa o espaço entre os dois atacantes
- Atacantes (azul claro): o atacante do lado da bola pressiona a mesma e o do lado contrário tira a opção de passe curto para trás

Figura 1 - Pressão na linha 1 jogando no 1-3-4-1-2

Na figura 2, a equipe que ataca no sentido da seta ao lado do campo está estruturada em um 1-3-4-2-1 com dois volantes, dois alas e dois meias ofensivos no meio de campo. Seguem abaixo as dinâmicas de cada setor da equipe.  
- Goleiro (vermelho): fora da grande área
- Linha defensiva (azul): próxima ao meio campo, com os 3 zagueiros realizando uma flutuação para o lado da bola
- Meio Campo (azul escuro): o ala do lado da bola fecha a paralela, o ala do lado oposto a virada de jogo (caso a bola chegue no lateral que está aberto este ala temporiza a jogada), o meia ofensivo do lado da bola pressiona a mesma e o meia ofensivo do lado oposto ocupa o espaço entre o meia que pressiona e o atacante
- Atacante (azul claro): tira a opção de passe curto para trás


Figura 2 - Pressão na linha 1 jogando no 1-3-4-2-1
 
Na figura 3, a equipe que ataca no sentido da seta ao lado do campo está estruturada em um 1-4-3-2-1 com um volante, dois alas e dois meias no meio de campo. Seguem abaixo as dinâmicas de cada setor da equipe.  
- Goleiro (vermelho): fora da grande área
- Linha defensiva (azul): próxima ao meio campo, com o lateral contrário ao lado da bola um pouco mais distante do zagueiro do seu lado do que as distâncias mantidas entre os outros 3 jogadores da linha (linha elástica) para manter um bom equilíbrio horizontal (caso a bola chegue no lateral adversário que está aberto este lateral temporiza a jogada)
- Meio Campo (azul escuro): mantendo a estrutura proposta (um volante + dois alas + dois meias), o ala do lado da bola fecha a paralela. Em relação aos meias que jogam por dentro, o do lado da bola pressiona a bola enquanto o outro tira as opções de passe para as regiões centrais à frente do volante e do ala oposto
- Atacante (azul claro): tira a opção de passe curto para trás no zagueiro

Figura 3 - Pressão na linha 1 jogando no 1-4-3-2-1

Todas as dinâmicas apresentadas são consequência do processo de treinamento que levou os atletas a resolverem coletivamente o problema da ocupação do espaço aplicando as soluções que mais se aproximavam das suas possibilidades e características. A variação das plataformas dará ao treinador a possibilidade de ter a pressão alta como conteúdo de seu Modelo de Jogo estando com um, dois ou três atacantes em campo. O princípio é o conceito da pressão alta, não a plataforma tática.  

Referência Bibliográfica

Amieiro, N. (2005) Defesa à Zona no Futebol: Um pretexto para refletir sobre o jogar ... bem, ganhando! Edição do Autor.

Leandro Zago