domingo, 6 de setembro de 2009

Seleção Brasileira: a evolução do Modelo de Jogo

São incontestáveis os resultados obtidos pela Seleção Brasileira no ano de 2009, principalmente nas competições oficiais em que conquistou o título da Copa das Confederações e a classificação antecipada para a Copa do Mundo de 2010 na África do Sul com uma vitória em Rosário contra a Argentina. Após um ano de 2008 em que o Brasil não marcou um gol sequer jogando em casa pelas Eliminatórias da Copa, a equipe vem apresentando uma evolução considerável e desde a goleada por 6 a 2 contra Portugal (jogo amistoso ainda em 2008) e tem ganho jogos de adversários tradicionais por placares destacados como por exemplo a vitória contra o Uruguai pela Eliminatórias em Montevidéu por 4 a 0 e o 3 a 0 contra a Itália na Copa das Confederações.
Do ponto de vista da dominante tática, pode-se perceber que Dunga abriu mão da rigidez de realizar a recuperação da bola através de uma única plataforma tática e prepara a equipe para organizar-se espacialmente de acordo com a linha da bola aumentando a flexibilidade posicional e a capacidade de adequação às situações problema do jogo. Com essas alterações, em muitas ocasiões do jogo um problema do Brasil (recuperar a bola) tem se tornado um problema para o adversário (não perder a bola) o que muda essencialmente o jogo e a tomada de decisão do mesmo (o adversário).

Figura 1 – As variantes da Plataforma Tática Matriz (clique para ampliar)

Num momento inicial e pelas características dos jogadores, a plataforma tática que se configura é a 1-4-3-1-2 (figura 1 – A) que funciona como uma matriz para o aparecimento de novas configurações para as situações do jogo que vão se delineando. E como a partir das situações do jogo, novas plataformas vão se apresentando com regularidade, constata-se que realmente vão além de adequações posicionais da matriz para emergirem como alternativas para resolver as necessidades da equipe principalmente quando está sem a bola.

Quando o adversário inicia a circulação da bola no campo defensivo, o Brasil adianta a primeira linha de marcação até a intermediária ofensiva (figura 1 – B). Robinho e Elano adiantam-se nas faixas laterais e Luís Fabiano na faixa central com o Kaká também centralizado, porém um pouco mais atrás, formando um grande losango. Duas tarefas parecem balizar esse quarteto: manter a bola em circulação pela linha defensiva pelo maior tempo possível (aumentando as chances de um erro ser cometido e fazendo com que os mesmos tomem decisões precipitadas) e, se o adversário quiser aprofundar o jogo, direcioná-lo para o centro do losango onde sofrerá pressão imediata.

Caso a bola entre nesse espaço e não seja imediatamente recuperada, Elano e Robinho recuam até a linha do Kaká dando origem a plataforma 1-4-2-3-1 (figura 1 – C). Com essa formação, a referência é direcionar o adversário para as laterais, onde ele será pressionado.

Figura 2 – O Brasil no campo de defesa e o Balanço Defensivo (clique para ampliar)

Mesmo quando o adversário progride rapidamente, o Brasil consegue defender-se com pelo menos oito jogadores (goleiro + sete) atrás da linha da bola. Caso o ataque rápido ou contra-ataque do adversário seja desacelerado e ele comece a circular a bola na busca de espaços para finalizar (ataque posicional), o Robinho recua um pouco mais e mantem o equilíbrio horizontal da equipe assegurado (figura 2 – D) apontando para uma outra plataforma, o 1-4-4-1-1, com nove (goleiro + oito) jogadores atrás da linha da bola.

A organização defensiva brasileira enfrenta os seus maiores problemas quando tem que se defender muito próxima a seu gol. E isso não acontece simplesmente pela proximidade que o adversário está da sua meta, mas também porque nesta zona do campo a equipe (Seleção Brasileira) ainda demonstra uma considerável confusão em relação às referências para a marcação. Alguns jogadores mantem as estruturas com referências no espaço, outros acompanham o adversário direto, com pouca coordenação entre esses movimentos. Esse fato leva o Brasil a desorganizar-se e a recuperar a bola (com certa dificuldade e em zonas que não favorecem a manutenção ou a progressão) muito próxima do gol que defende tendo interferência direta na transição ofensiva que fica prejudicada. Nestes momentos do jogo, a Seleção fica em sua maioria na intermediária defensiva, sofrendo alguns ataque consecutivos (figura 2 – E).

O Brasil tem obtido muito êxito em ataques rápidos e contra-ataques, porém quando o adversário consegue construir situações que o induzem a circular com uma certa freqüência (ataque posicional) alguns problemas são apresentados. O principal deles é no balanço defensivo, que pode ser observado quando a Seleção enfrenta equipes que tem como princípio recuperar a bola e sair rápido para o campo de ataque. Os locais onde o risco é mais evidente nas últimas partidas são as faixas laterais (figura 2 – F), porque jogando contra equipes compactas, o Brasil busca penetrações por essa região na tentativa de dar melhor amplitude ao ataque.

Com três anos de trabalho sob o comando do técnico Dunga, fica evidente a evolução que a Seleção Brasileira teve desde que ele assumiu. Com menos de um ano para a Copa do Mundo, alguns detalhes ainda podem (e devem) ser acertados. Independente disso, o treinador chegará à Copa merecendo a credibilidade (que ele conquistou com bons resultados) de todos.


Leandro Zago

sábado, 30 de maio de 2009

Compreensão do Jogo: da formação ao profissionalismo

Segue abaixo o questionamento (em itálico) e a resposta dada ao editor do site "Universidade do Futebol", Bruno Camarão, sobre o comentário recente do treinador Mano Menezes dado ao programa Arena Sportv.

No programa Arena Sportv, o Mano Menezes, treinador do Corinthians, após questionado sobre a atuação de meio-campistas, estilos, etc, falou sobre o Boquita, jovem de 18 anos, que participou da campanha vitoriosa na Copa São Paulo desse ano e subiu para o elenco profissional. E comparou com outra revelação: Lulinha.

"O Boquita encontrava muitas dificuldades de definição de jogada, pois cadenciava muito, tinha uma leitura privilegiada, mas a dinâmica da partida nessa categoria era mais corrida. Quando ele chegou no profissional, diante de uma maior cadência, adaptou-se rapidamente. Com o Lulinha pode ter ocorrido o inverso, sem dúvidas".

Sobre isso, gostaria de contar com a sua opinião de campo. É comum jogadores apresentarem mais dificuldades na base, por conta do seu estilo, e se adequarem rapidamente quando são encaixados no time de cima? O processo de maturação dos atletas nesse período, entre os 16 e 18 anos é mais ou menos parecido? Que tipo de trabalho poderia ser realizado com esse tipo de atleta para "acelerá-lo" ou "desacelerá-lo"?

"Primeiro temos que tentar entender o que o treinador Mano Menezes entende por "cadenciar" o jogo. Ao dizer que na categoria sub-20 a dinâmica do jogo é mais "corrida" provavelmente ele está se referindo (quando cita esses dois termos) ao correr menos ou mais sob o ponto de vista da dominante física de forma dissociada às outras variáveis.
Em tese, o jogo das equipes profissionais deve ser o mais elaborado (pensando na evolução do jogo anárquico ao elaborado segundo Júlio Garganta) e, portanto exige uma compreensão num nível superior àquele exigido pelas categorias de base. Digo em tese porque podemos ter equipes sub-20 ou sub-17, por exemplo, que construam um jogar baseado em uma maior e melhor utilização de referências, proporcionando a essa equipes um jogo melhor qualificado.
Atualmente, no Brasil, o desenvolvimento dessa compreensão do jogo fica dependente da capacidade individual dos atletas em problematizar as situações por ele vivenciadas e transformar em aprendizado efetivo. Não se considera um conteúdo fundamental em nossas categorias de base (salvo raríssimas exceções - para não falarmos todas - inclusive aquelas reconhecidas por apresentarem uma excelente infra-estrutura) desenvolver a compreensão individual e coletiva dos atletas no intuito de promover um jogar superior. Perceba como nossos atletas vem sendo contratados mais novos (em idade) e terminando seu período de formação em alguns grandes clubes europeus. Poucos têm saído do Brasil e jogado regularmente nas equipes de "top" européias sem uma prévia adaptação. Essa leitura privilegiada, a qual se referiu o treinador em relação ao Boquita, é treinável, mas para isso existe um processo de alguns anos que deve iniciar no momento que o garoto entra no clube (sub-11 ou sub-13) e que respeite sua zona de desenvolvimento proximal e não deve terminar assim que ele chega ao profissional, pois a aprendizagem contínua e a vitória andam lado a lado. Precisamos rever alguns conceitos."


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Leandro Zago