domingo, 8 de janeiro de 2012

Espaço Efetivo de Jogo


O Espaço Efetivo de Jogo numa perspectiva do jogo, das equipes e das questões circunstanciais que vão se construindo

A princípio, o jogo de futebol pode ocorrer em todo o espaço delimitado pelas linhas laterais e linhas de fundo. Algumas regras do jogo e principalmente a regra do impedimento impõe algumas restrições em relação à utilização do espaço total em determinadas circunstâncias e a posição das duas balizas (os gols) também interferem na preferência pelo tipo de organização para ocupar determinados espaços. 

Figura 1 – As três dimensões do Espaço Total de Jogo

O Espaço de Jogo possui uma determinada largura, um determinado comprimento e uma altura teoricamente infinita (figura 1). As limitações na dimensão da altura são impostas pelas possibilidades que o ambiente permite (a lei da gravidade, por exemplo), exceção feita aos modernos estádios cobertos que são construídos atualmente. A resultante dessas três dimensões (o volume) é o total de possibilidades de utilização do espaço.

Figura 2 – Área da Equipe

Habitualmente, avalia-se o espaço efetivo de uma equipe pela área total que ela consegue ocupar (figura 2), considerando os jogadores que estão nos limites da organização coletiva. Considera-se que, quanto mais espaço estiver ocupado, maior a capacidade da equipe em manter a posse da bola (campo grande para atacar), visto que o adversário terá que cobrir uma área também maior para recuperar a posse, dificultando seu trabalho em cumprir com alguns princípios estruturais defensivos, como a cobertura e a compactação. É importante entender que a forma como ocupa-se a região interna dessa área e como se dão as relações entre os atletas da equipe são fatores fundamentais para que se tenha êxito nessa ampliação do espaço de jogo da equipe. Existem distâncias ótimas para cada momento e circunstância, portanto um grande afastamento entre os jogadores permitirá a ocupação de mais espaço, mas poderá interferir na capacidade deles se relacionarem. Enquanto uma pequena distância entre os jogadores poderá gerar melhor relação, porém com pouca utilização dos espaços. Repetindo, as distâncias entre os jogadores devem ser ótimas em resposta aos problemas que devem ser resolvidos a cada nova (e ela será sempre nova) circunstância surgida.   
Na figura acima, estão destacados os dez jogadores de linha, porém deve-se ressaltar o papel do goleiro em aumentar o campo efetivo da equipe para trás (nas equipes com goleiros que participam bem com os pés) quando isso se mostrar necessário.

Figura 3 – Relação do Campo Efetivo com a Pressão na Bola

Ao tentar reduzir o campo efetivo do adversário utilizando-se da regra do impedimento, haverá uma aproximação das linhas de defesa, meio e ataque, encurtando em comprimento a equipe (como o Benfica, em vermelho e branco, na figura acima). Nessa situação, a falta de pressão na bola (jogador em destaque na figura) permite ao adversário explorar melhor todo o volume do espaço (largura, comprimento e altura), podendo inclusive tentar aproveitar o espaço nas costas da linha de defesa com bolas longas. A forma como o espaço é estruturado e as regras de ação devem estar correlacionadas para que o produto final (proteger o alvo, impedir a progressão, recuperar a bola) tenha êxito.
Dois princípios de ataque podem colaborar para a ampliação do espaço efetivo de jogo da equipe, a mobilidade e o ataque aos espaços nas costas da última linha (ultrapassagens). A mobilidade permitirá principalmente a utilização dos espaços internos da equipe adversária, criando/aumentando espaço, enquanto o ataque aos espaços nas costas da linha de defesa poderá gerar instabilidades defensivas no adversário, como não permitir o avanço da linha de defesa de maneira eficaz, aumentando o espaço (que pode ser explorado) entre esta e a linha do meio, por exemplo, ou, jogar no espaço entre a linha de defesa e o goleiro.

Figura 4 – Concentração de jogadores na zona da bola
Em jogadas com disputas de bola no alto, como o tiro de meta, por exemplo, as equipes tentam concentrar muitos jogadores na provável região onde a bola será lançada com o objetivo de conquistá-la na primeira ação sobre ela ou em um possível rebote (figura 4). Assim que obtêm a posse da bola, inicia uma disputa diferente pelo espaço, quem a tem (a bola) tenta ampliá-lo (o espaço) e quem está sem bola tenta reduzi-lo. Diferente de situações de disputa, quando a redução para ambas equipes pode ser vantajosa, visto que a posse ainda está indefinida.
Essa capacidade de expansão e retração da equipe, de maneira harmônica e coordenada terá muita relação com a eficácia na gestão do espaço de jogo defensiva e ofensivamente, desde que esteja alinhada com a solução dos problemas em função dos objetivos do jogo.

Leandro Zago

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

1-3-4-3: Dinâmicas da Organização Defensiva e Ofensiva

Alguns apontamentos sobre os sistemas defensivo e ofensivo do 1-3-4-3 na tentativa de explorar melhor suas possibilidades

“A autonomia organizada no jogo de futebol (dos seus elementos),
pressupõe liberdade e sentido para a ação”
(Leitão, 2009)

A disposição dos jogadores em um campo de futebol costuma dizer pouco sobre o que realmente é a equipe. A partir de um desenho pré-definido para a ocupação do espaço de jogo, há uma intenção (jogadores - individual e equipe - coletiva) em manter essa organização durante a partida, pois isso é visto como algo vantajoso para o êxito dentro de campo. O esquema tático ou plataforma tática (Leitão, 2009) varia entre as equipes e dentro da mesma equipe ao longo dos jogos. Passando para as possibilidades dentro das plataformas, essa variedade se torna praticamente infinita.
Serão exploradas algumas situações pontuais dentro do sistema defensivo e ofensivo do 1-3-4-3 (equipe amarela nas figuras) com o meio de campo estruturado em um losango. Neste momento, não serão abordadas situações de transição (ofensiva e defensiva) especificamente.
   
- Sistema Defensivo: basicamente, as situações estão relacionadas à ocupação do espaço.


Figura 1 – Flutuação e Equilíbrio Horizontal

Na figura 1, a equipe amarela flutuou para o lado da bola na tentativa de gerar superioridade numérica, com as linhas de defesa (3 jogadores) e meio (4 jogadores) bem agrupadas permitindo pressionar a bola nessa zona do campo. Como consequência desse movimento, o lado oposto fica fragilizado podendo ser explorado pelo adversário. No “1-3-4-3 losango” as linhas de defesa e meio são “estreitas”, a de defesa pelo número de jogadores (3) e a linha de meio campo pela disposição no espaço (a figura de um losango). Isso faz com que os atacantes que jogam abertos tenham que trabalhar muito defensivamente, aquele do lado da bola pressionando o espaço (na figura acima ele está gerando pressão por trás do portador da bola) e o outro atacante deve ocupar a faixa contrária a da bola, mantendo um bom equilíbrio horizontal.  

 
Figura 2 – Estruturação do espaço na Pressão Alta

Numericamente, o 1-3-4-3 favorece a ocupação do campo adversário. Porém, deve-se concentrar em não permitir que a bola saia do campo de ataque de maneira confortável para o adversário, pois essa vantagem numérica se reverte em desequilíbrio defensivo. Para isso, duas questões são fundamentais: pressão na bola e gestão eficaz do espaço. Na figura 2, pode-se observar dois desenhos de meio campo pressionando alto, um com uma figura de maior área (à esquerda) e outro com uma figura de menor área (à direita). Com maior espaço ocupado, pode-se pressionar a bola em zonas mais variadas caso o adversário consiga manter uma boa circulação sob pressão. Um losango menor, mantêm mais jogadores próximos à bola dificultando sua saída dessa região do campo. É uma questão de leitura (individual e coletiva) e aplicação da melhor resposta de maneira circunstancial.

- Sistema Ofensivo: as situações abordadas relacionam-se a primeira fase de construção e ao ataque ao espaço na última linha.

Figura 3 – Circulação da bola no campo defensivo

A forma como os jogadores da equipe em posse que estão sem a bola ocupam o espaço tem total interferência na capacidade de circulação e de retirada da bola das zonas de pressão construídas pelo adversário. Na figura 3, num primeiro momento (à esquerda), o portador da bola tem duas opções de passe, uma bola curta e outra média com certo risco de perda. Nenhuma opção de passe em progressão. Com duas movimentações (à direita), foram construídas quatro opções de passe, sendo uma em progressão e o campo foi aumentado para trás (goleiro). Com mais opções, fica dificultada a ação pressionante da equipe vermelha, essa situação gera mais momentos de indecisão à equipe sem bola.    

Figura 4 – Ataque ao espaço pelo meia ofensivo

O meia ofensivo do losango, pode criar superioridade numérica na linha de ataque sempre que atacar os espaços na linha de defesa no tempo correto. Jogando contra equipes que jogam com linha de quatro defensores e marcam individual por setor sustentando um defensor “na sobra”, realizando a cobertura na zona central, haverá espaço nos corredores entre os zagueiros e os lateriais conforme está destacado na figura 4. Além dessa situação descrita especificamente, o entendimento do conceito de atacar o espaço nos corredores da linha, sempre se tornará um comportamento vantajoso, independentemente se a bola for passada ou não. Caso enfrente uma equipe que marca por zona, esse movimento poderá contribuir para “empurrar” a defesa para trás quando não houver pressão na bola, criando espaços na frente da linha defensiva.
Tão importante quanto entender essas questões estratégicas, é perceber como a equipe responde aos problemas e se essa resposta está sendo efetiva para solucioná-los. É fundamental que os atletas entendam o significado de cada movimento da equipe para que possam alinhar com sua percepção do jogo.


Referência Bibliográfica

Leitão, R.A.A. O jogo de futebol: investigação de sua estrutura, de seus modelos e da inteligência de jogo, do ponto de vista da complexidade. Tese de Doutorado em Educação Física. Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). 2009. Campinas. 2009.


Leandro Zago